terça-feira, 6 de novembro de 2007

Heloísa e as laranjas, na Folha de Londrina



Por Marcos Losnak

Meu avô, quando estava bem velhinho, vivia dizendo que as pessoas eram como laranjas. Todas iguais e, ao mesmo tempo, todas diferentes umas das outras.

Ele esparramava as laranjas da fruteira em cima da mesa e explicava que todas elas eram redondas e amarelas. Depois, começava a indicar as diferenças entre elas. Uma era mais achatada, outra mais longa. Uma tinha a casca lisa, outra a casca mais grossa. Uma cheia de pintas, outra repleta de verrugas.

Mas meu avô não parava aí. Cortava todas as laranjas ao meio e mostrava que não eram apenas parecidas por fora. Também eram semelhantes por dentro. E, logo em seguida, apontava as diferenças. A quantidade de sementes, os vários formatos, a disposição dos gomos, as cores, as doces, as azedas e muito mais.

Ele falava que, apesar das diferenças, todas as laranjas viviam juntas, numa mesma árvore, a laranjeira. E as árvores também viviam juntas, uma ao lado a outra, no pomar.

Com toda essa história, meu avô queria dizer alguma coisa sobre a necessidade das pessoas conviverem com as diferenças. Se relacionarem com as diferenças de maneira natural e tranqüila, sem nenhum bicho-de-sete-cabeças. Algo bem semelhante ao que Cristiana Soares realiza em ''Por Que Heloísa?'', livro lançado pela Editora Companhia das Letrinhas com ilustrações de Ivan Zigg.

''Por Que Heloísa?'' é o primeiro livro publicado no Brasil que apresenta às crianças a história de uma menina com paralisia cerebral. Uma criança diferente de outras crianças e, ao mesmo tempo, igual a toda e qualquer menina.

De maneira simples e sem sisudez, Cristiana Soares revela a vida da pequena Heloísa, seu cotidiano, sua maneira de ser, suas necessidades especiais e afetivas. Também revela as dificuldades iniciais que todos possuem para se relacionaram com pessoas diferentes. Demonstra como a diferença pode ceder naturalmente lugar à solidariedade. E como a solidariedade pode levar à compreensão de uma ampla diversidade humana.

Assim como meu avô demonstrava que as laranjas são diversas, ''Por Que Heloísa?'' demonstra que as crianças também são diversas. E que todas devem viver ao lado de outras crianças. Como as laranjas num mesmo pé. Como as laranjeiras lado a lado, num mesmo pomar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Lançamento em Curitiba



Morei em Curitib
a durante cinco anos. Minhas filhas passaram boa parte da infância lá. Mas nessa época ainda não havia a livraria Bisbilhoteca. Bom, só esse nome já diz tudo, né? Eu nem pensei duas vezes quando a dona, Cláudia Serathiuk, me propôs um lançamento do “Por que Heloísa?” na toca dos curiosos, dia 13 de outubro.

Na verdade, a grandiosidade e o charme da livraria não podem ser vistos plenamente por essa foto. A porta da entrada, garimpada em um ateliê de restauração de móveis antigos, tem mais de 100 anos e veio de uma demolição de Paranaguá. Funciona como uma espécie de portal que nos leva a um mundo de sonhos literários infantis. Um buraco para o país de Alice.



A homenageada da tarde foi minha filha Luísa, musa inspiradora do livro.







Essa dupla empalhaçou o evento.






Giovana com um ou dois enes?





Até amigas de infância apareceram magicamente por lá. Deve ser o efeito bisbilhoteca.





Esse foi só para bisbilhotar, mas saiu com um "Por que Heloísa?" na mão.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Mesa-redonda na USP


A professora Edna Mattos me convidou para participar de uma mesa-redonda realizada no curso de Pedagogia da USP. A outra convidada foi a psicóloga e mãe de uma menina com síndrome de down, Norma Telles. O tema da mesa: “Envolvimento parental na educação do aluno com deficiência intelectual”.

A professora é mesmo uma fofa como já haviam me dito. Além disso, é uma defensora ferrenha da inclusão.

Uma ótima surpresa foi constatar que eu e a Norma nos complementamos perfeitamente nas nossas colocações e saberes.

Considero um privilégio para os alunos da Pedagogia terem contato com essas experiências narradas e debatidas ainda dentro da sala de aula. Alguns deles já trabalham em escolas e colaboraram com suas vivências também.

Fico muito feliz em poder contribuir para a formação desses novos professores que estão entrando na área da Educação num momento em que a inclusão é condição sine qua non.

A professora Edna está de parabéns por complementar a teoria com questões práticas em seu curso.

E, é claro, o livro "Por que Heloísa?" foi um dos destaques do evento. O exemplar que eu levei como demonstração foi direto para a casa da professora, com uma dedicatória muito carinhosa.

Na foto, da esquerda para a direita: aluna da pós-graduação Tatiana, professora Edna Mattos e a psicóloga Norma Telles

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Semear livros para colher leitores



Dia 29 de setembro. O auditório da biblioteca do Memorial da América Latina estava lotado. "Quem gosta de escrever aqui?", perguntei. A meninada se ouriçou. Várias crianças e adolescentes levantaram a mão e se manifestaram.

Um privilégio estar frente a frente com alunos representantes das escolas da rede municipal de São Paulo. E não sou a primeira a ser convidada para participar desse momento especial propiciado pelo Projeto Sementeira.

Tatiana Belink, Marta Góes, Ricardo da Cunha Lima, Luiz Schwarcz, Liliana Iacocca, Fernando Bonassi e Ricardo Azevedo são alguns nomes de au
tores que já participaram.

O Sementeira foi concebido, em 2002, através de uma parceria entre o Centro Universitário Nove de Julho (Uninove), o Memorial da América Latina e as Editoras Cosac Naify e Cia das Letrinhas.

O objetivo principal do Sementeira é disseminar o gosto pela leitura entre os alunos da rede pública de ensino. Não é bárbaro?

Acontece assim: durante um bimestre, profissionais da Uninove trabalham especificamente um autor com professores de algumas escolas selecionadas. Ess
es professores estudam com seus alunos um livro do escritor.

Eles são orientados a desenvolver em sala de aula atividades que promovam nas crianças o encontro com a literatura. Como, por exemplo, a prática de argumentar sobre a obra, conjecturar como e por que ela foi criada e até imaginar um novo final. Por que não?

No nosso esperado encontro, fui deliciosamente sabatinada pelas crianças. Um show de curiosidade e interesse pelo livro “Por que Heloísa?” e o seu processo de criação.

Em seguida fui presenteada com cartas, anúncios e cartazes. Projet
os iniciados a partir das atividades. Fiquei muito emocionada ao ler os conteúdos e ver os desenhos criados pela meninada (alguns exemplos abaixo).

Uma das coisas que acho mais bacana nesse projeto é o seu desdobramento com a produção de textos pelos alunos. Ou seja: eles não só são incitados à leitura como também à escrita.

A oportunidade de participar do Sementeira, conversando com a moçada sobre ler e escrever, é de uma satisfação sem igual.

E nesse dia eu tive a certeza de que as sementes haviam “pegado”.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Visita ao Colégio Santa Amália



Fui convidada para participar como palestrante no VIII Mostra de Contos e Poemas- 2007, do Colégio Santa Amália, no bairro Jabaquara, em São Paulo.

Dentro da programação, houve feira de livro
s, trocas de livros usados, oficinas, palestras, contação de histórias, peças teatrais e declamação de poemas. O evento durou três dias.

Assim que cheguei, já fiquei deslumbrada com a construção da casa que abriga a escola. Segundo Luciana Arcanjo, a encantadora bibliotecária, a construção foi doada pela família Matarazzo e tombada pelo patrimônio histórico nacional.

O Santa Amália foi fundado em 1924 pela Liga das Senhoras Católicas de São Paulo e é uma unidade provedora que gera recursos para manter o trabalho social da Liga.

A minha alegria aumentou quando fui recebida pela diretora, Maria Elisa Sperling, e pela orientadora pedagógica, Cláudia Emília. Umas simpatias.

Em seguida, fomos para a sala onde as professoras da pré-escola e das primeiras séries do ensino fundamental me aguardavam.

Não vi as horas passarem. A receptividade positiva das professoras em relação à palestra acrescentou ainda mais entusiasmo à visita.

E enquanto eu estava na biblioteca autografando alguns livros, adentraram no ambiente duas mocinhas saltitantes e um rapazinho curioso. Ao me verem, fizeram aquela cara deliciosa que as crianças fazem quando estão na frente de algo ou alguém que elas admiram. Pronto, foi foto para a posteridade.

E se ainda não fosse o bastante, voltei para casa com um mimo de dar água na boca: trufas de chocolate. Sinto um gostinho doce até agora.



sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Depoimento de uma mãe-leitora


Por Denise de Pasqual

O livro infantil "Por que Heloísa?", da Cristiana Soares, editado pela Companhia das Letrinhas, é um dos meus mais recentes xodós. São tantas as razões porque eu gosto dele, que provavelmente me faltará poder de síntese neste texto.

O tema do livro me é muito caro. Ele conta a história de como Heloísa - uma menina com paralisia cerebral - e sua família encaram a vida; de como é viver assim na nossa sociedade; e de quanto falta para que o nosso mundo esteja mesmo apto a receber os diferentes.

Histórias que nos são mais próximas nos tocam mais do que outras. Como tenho uma amiga querida muito próxima que convive com a mesma realidade, foi muito emocionante ler o livro para a minha filha pensando nessa outra família de quem tanto gosto e admiro.

Mas este está longe de ser o único motivo para eu gostar do livro.

Adoro o jeito simples com que a Cristiana conseguiu expressar sentimentos tão complexos como os da Heloísa (personagem inspirada em sua filha) e os da família da menina.

Ao falar sobre a força que ela precisa ter para superar os momentos de tristeza, por exemplo, há a seguinte frase: "Se eu ficar borocoxô, quem vai ensinar a ela que a vida é do balacobaco?"

Também me encanta o jeito didático, mas dentro do contexto, sem ser chato. As crianças tomam contato com palavras como "deficiência", "paralisia cerebral", "solidariedade" e "diversidade" de um jeito divertido como eu jamais poderia imaginar que fosse possível.

E me fascina particularmente o estilo do texto, cheio de indagações para os leitores, tornando praticamente impossível não iniciarmos uma coversa sobre o assunto a partir de sua leitura.

Olhem só algumas delas: "Mas, afinal, tem hora certa para sorrir, sentar e andar?", "Você conhece essa palavra, de-fi-ci-ên-cia?", "Mas qual é o jeito certo e o jeito errado?", "Por que muitas crianças com deficiência ficam sempre dentro de casa?", "Por que tudo é tão difícil para Heloísa?" E a indagação final, que é a minha preferida: "Por que você é tão linda, Heloísa?"

Como se não bastassem todos esses motivos, para completar, o livro é ilustrado pelo Ivan Zigg, de quem somos fãs aqui em casa. Ele tem um traço que adoro e que é tão característico, que basta olhar para a capa para percebermos que os desenhos são dele.

Gostar de ilustradores é uma coisa que aprendi com meus filhos, ao mergulhar novamente na literatura infantil, e o Ivan é um dos bons mesmo. Ao ponto de ele ser até um dos critérios de classificação na estante da Luísa. Há pelo menos três livros lá que ficam juntos, porque são livros ilustrados por ele.

Assim, não deu outra. A leitura foi um ótimo mote para uma conversa com a Luísa sobre como ela e os demais amiguinhos da escola estavam lidando com um colega cego mais velho da 4ª série, na primeira experiência inclusiva de sua escola que vivenciamos.

As palavras "deficiência", "solidariedade" e "diversidade" foram novamente ditas nessa conversa.

E minha filha gostou tanto do livro, que o levou para a escola para que a professora o lesse para seus amiguinhos da classe. E pelo que ela me contou, fez muito sucesso por lá. Também pudera, com tantos bons motivos assim para gostarmos dele!

escrito originalmente para o Blog da Macacada